Amo status de vídeo engraçado

Quando eu era garoto

2019.10.08 17:29 BolovoDePomba Quando eu era garoto

Ontem fui ver o filme do coringa, depois entrei aqui pra ler umas threads e trombei um garoto que era impagável. bem, quero participar da discussão desse filme, dedico pra esse rapaz meu texto: sinto saudades de ser você.
É engraçado, se a gente se trombasse de verdade, que dó de mim, só mais um conformista alienado, derrotado pelo sistema, eu sei, nessa altura do campeonato você já sabe todas as regras do jogo, na verdade, já sabe de tudo, talvez sentisse até um pouco mal por mim, só mais um na multidão, que desperdício!
Lembro claramente de me perguntar "o que será que passa na cabeça dessas pessoas? Como elas conseguem ver A fazenda?". Pois bem, me deixa dizer o que penso dessa vida.
O meu filme do coringa foi mágico,tinha no máximo 16 anos e toda a sabedoria de Salomão, logicamente. O Heath Ledger tinha alcançado um status quase mitológico depois do suicídio "mano, ele, tipo… morreu pela arte véi…",e cena que ele enfiou o lápis na cabeça do capanga? Nessa hora, dei um pulo da cadeira de tão empolgado que moço do meu lado riu, foda-se, ele não entendia que aquilo era uma audaciosa releitura realista do universo fantástico dos super heróis, devo ter falado uma baboseira assim na época. Esse domingo fui ver o novo com a minha mulher (sim, com muito custo, aprendi a agir normalmente perto de mulheres) e um gordinho, com barba no pescoço, sentou do meu lado, fiquei melindrado o filme todo. Na hora do clímax ele levantou as mãos pro alto em êxtase, me caguei de medo, "é agora, chegou minha hora, vou virar nota de rodapé" virei pra minha mulher, que tmb tava de butuca, e falei "amor, só queria que vc soubesse que a gente ia conseguir pagar as dívida." Rimos de nervoso.
Como foi que a gente chegou aqui? Era só um garoto curtindo.
Voltando pros anos de crisálida, devo ter chego em casa e ter lido as críticas do filme ouvindo system of a down "ói que foda, os cara denunciam o genocídio Armênio. Isso aí! Porque os presidentes não lutam na guerra ? e tem gente que perde tempo ouvindo Malu Magalhães, como pode?". Me fazia essas perguntas trancado no meu quarto, jogando vídeo games e lendo mais sobre cinema, queria ser um virtuoso no assunto. enquanto isso, na cozinha, minha mãe ouvia O mundo é um moinho do Cartola, em transe assim, só ela, o Cartola e a pilha de louças. Mal sabia eu que uns 10 anos depois eu estaria chorando no busão ouvindo um Belchior. Bem, acho que minha mãe sabia. Eu me arrependo um pouco de como a nossa relação desenrolou. Ela nunca entendeu, eu nunca quis escutar. Foi ficando cada vez mais difícil até que a corda estourou.
É meu parceirinho, é que não dá tempo de pensar no genocídio Armênio quando você tá a dois dias se humilhando pra telemarketing da vivo, pedindo pelo amor de Deus pela internet de volta, enquanto, do outro lado da sua mansão de 7m², sua geladeira, que tá um mês quebrada te olha com pena… Pelo menos ela teve a hombridade de desistir.
A verdade é que Presentemente posso me considerar um Millenial de sorte, trabalho com aquilo que eu amo, ou seja, ganho uma merreca, menos que um Rappi, mas caso eu venha a óbito durante as minhas 65 45 horas semanais, alguém vai ligar pra minha mina. Talvez na próxima reforma eles resolvam esse empecilho, é que o patronato é muito honerado por aqui, tem que resolver sabe? Tive boa educação, larguei minha primeira faculdade (clássico), me trato, tomo meus remédios, vou na academia, tenho uma carteira de investimentos, planilhas e essas porra tudo. Ter nascido durante colapso do ocidente até que não é tão horrível, quer dizer, somos a única geração que vai poder vender nossos dados pessoais por créditos na Play Store pra comprar algum joguinho que rouba nossos dados pessoais!
Já fui xarope também: logo depois engatei na fase que você começa a ver Kubrick, Hitchcock, Kurosawa, Scorsese, Lars von Trier…. Tudo esses cara aí. Fui analisar as referências junguianas das obras, descobri que falar mal dos filmes e soltar essas groselhas me fazia parecer inteligente, nessa época já não tinha tanta certeza da minha onisciência, daí precisava ficar me reafirmando.
Ainda curto ver uns filmes cabeçudos, mas sabe do que eu gosto mesmo? chegar em casa e ver reality show, de preferência fool us, ou, largados e pelados. Eu e a Muié do meu lado, bem gado assim, isso é que é vida cara! Se estou no trabalho e toca system eu fico nostálgico, ainda não acho certo eles mandarem os pobres, mas, hoje, prefiro é quando toca pagode e todo mundo canta junto, é que hoje em dia prefiro pertencer. Sabe o que muda? A gente deixa de se levar a sério. Mais cedo ou mais tarde todo mundo vira o Baratão do Kafka, só que eu escolhi sair do quarto usando uma cuequinha de crochê, as pessoas se perdem no ridículo e não percebem que tem uma maçã apodrecendo nas minhas costas. As vezes até eu esqueço dela.
Tá, mas e o filme ? É legal, o diretor fez a lição de casa. Foi bom ver o DeNiro de novo, o Joaquim da umas chorisos muito intensos, você não chegou nesse nível de desgaste mental ainda, olhando pra trás, na sua idade minha saúde…. Minha saúde mental já estava debilitada, a semente já tava lá, só que eu segurava a onda. Meus pais fizeram o melhor com o que eles sabiam na época.
A, é, o filme, curti aquela linha que ele fala "a pior parte de ter uma doença mental, é que as pessoas esperam que você aja como se não tivesse" nessa hora eu até parei de manjar o gordinho por alguns minutos.
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